Recebo, com frequência, pacientes que chegam ao consultório relatando uma queimação persistente na boca — na língua, nas gengivas, nos lábios — sem qualquer lesão visível que justifique essa dor. Muitas delas estão entre os 40 e 60 anos e passando pelo climatério. Não é coincidência. Esse quadro tem nome: Síndrome da Boca Queimada (SBQ), e as alterações hormonais dessa fase da vida estão diretamente relacionadas ao aumento da sensibilidade bucal.

Neste artigo, vou explicar de forma clara o que é essa síndrome, por que ela acomete principalmente mulheres no climatério e o que fazemos aqui na clínica em Ipanema para tratar esse problema com cuidado e eficácia.

O que é a Síndrome da Boca Queimada?

A Síndrome da Boca Queimada — também chamada de Síndrome da Boca Ardente — é uma condição de dor crônica caracterizada pela sensação de queimação, ardor ou formigamento na mucosa oral, sem que haja lesões visíveis que expliquem o desconforto. Isso significa que, ao exame clínico, a boca pode parecer completamente normal.

Os locais mais afetados são a língua (especialmente a ponta e os bordos), as gengivas, o palato e os lábios. A dor geralmente piora ao longo do dia — é comum as pacientes relatarem que acordam sem sintomas e que o ardor vai se intensificando à tarde e à noite.

Segundo dados publicados no SciELO Brasil e referenciados pelo portal Drauzio Varella, a SBQ acomete 7 vezes mais mulheres na faixa dos 40 a 60 anos em comparação a outros grupos populacionais, com prevalência estimada entre 10% e 40% das mulheres pós-menopausa que apresentam xerostomia (boca seca). Para entender por que isso acontece, precisamos falar sobre as mudanças que o climatério provoca no organismo feminino.

Por que o climatério aumenta a sensibilidade bucal?

O climatério é o período de transição hormonal que antecede e sucede a menopausa. Durante essa fase, os níveis de estrogênio e progesterona caem de forma significativa — e essa queda afeta muito mais do que os ciclos menstruais. A boca é um dos órgãos mais sensíveis a essas mudanças hormonais.

Queda hormonal e xerostomia: a relação com a boca seca

O estrogênio desempenha um papel fundamental na manutenção da mucosa oral. Ele regula a hidratação dos tecidos, estimula a produção de colágeno e contribui para o equilíbrio da produção de saliva. Quando os níveis desse hormônio caem, as glândulas salivares passam a produzir menos saliva, gerando a chamada xerostomia — popularmente conhecida como boca seca.

Isso é um problema sério para a saúde bucal. A saliva não serve apenas para umedecer a boca; ela contém proteínas protetoras, agentes antimicrobianos e minerais que remineralizam o esmalte dental e protegem as gengivas. Sem essa proteção natural, os dentes ficam mais expostos a irritantes, ácidos e bactérias. Para entender melhor esse papel protetor, recomendo a leitura do meu artigo sobre o papel da saliva na sua saúde bucal, onde explico em detalhes como a boca seca compromete o equilíbrio oral.

Além da xerostomia, a mucosa oral fica mais fina e atrófica com a redução hormonal, o que a torna mais suscetível a microlesões e irritações — mesmo sem causas externas aparentes.

Alterações neurais: quando os nociceptores ficam hipersensíveis

Outro mecanismo central para compreender a SBQ é a ação dos hormônios sobre o sistema nervoso periférico. O estrogênio tem efeito neuroprotetor: ele modula a atividade dos nociceptores — os receptores de dor presentes na mucosa oral. Com a queda hormonal, esse equilíbrio se rompe.

O resultado é uma neuropatia sensorial periférica: os nervos da boca passam a enviar sinais de dor de forma amplificada, mesmo na ausência de estímulos que normalmente causariam desconforto. É como se o volume da "central de alarme" da dor estivesse sempre elevado. Esse processo é reconhecido pela comunidade científica como um dos principais mecanismos da SBQ, conforme detalhado no artigo de revisão publicado no SciELO Brasil sobre a etiologia da síndrome da boca ardente.

A combinação de mucosa seca, tecidos mais frágeis e nervos hipersensíveis explica por que dentes e gengivas ficam tão sensíveis no climatério — e por que a simples ingestão de um alimento quente, ácido ou picante pode se tornar dolorosa.

Sintomas: como reconhecer a Síndrome da Boca Queimada

Na minha prática em Ipanema, observo que muitas pacientes demoram para associar os sintomas ao climatério, pois a SBQ pode se manifestar de formas variadas. Os sinais mais comuns que identifico durante as consultas são:

  • Queimação ou ardor na língua, gengivas, lábios ou palato, sem lesões visíveis

  • Boca seca persistente, mesmo após beber água frequentemente

  • Sensibilidade aumentada a alimentos quentes, ácidos ou picantes

  • Gosto metálico ou amargo na boca sem causa aparente

  • Piora dos sintomas ao longo do dia, com alívio temporário ao comer ou beber algo frio

  • Formigamento ou dormência na língua ou nos lábios

É fundamental destacar que esses sintomas surgem sem lesões, feridas ou inflamações visíveis — e é exatamente isso que diferencia a SBQ de outras condições como a candidíase oral ou a gengivite. Se você sente sensibilidade dental associada a esses sintomas, recomendo também a leitura do meu artigo sobre sensibilidade nos dentes, onde exploro outras causas frequentes dessa queixa tão comum no consultório.

Mitos e verdades sobre a Síndrome da Boca Queimada

Ao longo dos anos atendendo pacientes, percebo que existem muitos equívocos sobre a SBQ. Vou esclarecer os mais comuns:

"SBQ é só estresse emocional." — MITO. Embora o estresse e a ansiedade possam agravar os sintomas, a origem da SBQ no climatério é predominantemente hormonal e neural. Reduzir tudo a questões emocionais atrasa o diagnóstico correto e impede o tratamento adequado.

"Sempre há feridas ou lesões visíveis na boca." — MITO. Na SBQ primária, o exame clínico é completamente normal. A ausência de lesões não significa que a dor é imaginação — ela é real e possui base fisiológica bem documentada na literatura científica.

"Alimentos frios e distração aliviam a queimação." — VERDADE. O frio atua diretamente sobre os nociceptores, reduzindo temporariamente a transmissão dos sinais de dor, e a hidratação da mucosa alivia a xerostomia. Pequenos cubos de gelo ou água gelada costumam trazer alívio momentâneo e são estratégias que eu oriento no consultório.

Um alerta importante que sempre faço: não use enxaguantes bucais alcoólicos ou ácidos se você suspeita de SBQ, pois eles ressecam ainda mais a mucosa e agravam a sensibilidade. Da mesma forma, evite automedicação antes de excluir causas secundárias como diabetes ou Síndrome de Sjögren.

Como diagnosticar e tratar a SBQ no meu consultório em Ipanema

O diagnóstico da SBQ é clínico e de exclusão: precisamos descartar todas as outras causas possíveis antes de confirmar o quadro. Veja como conduzimos esse processo de forma humanizada aqui na clínica:

Passo 1 — Consulta inicial completa: Realizo um histórico detalhado — hormonal, alimentar, medicamentoso e emocional — e um exame oral minucioso. Ouço com atenção cada detalhe relatado pela paciente, pois os sintomas são subjetivos e merecem toda a consideração.

Passo 2 — Exames complementares: Solicito exames laboratoriais para descartar causas secundárias: dosagem hormonal (estrogênio, TSH), vitaminas do complexo B, ferro, zinco e glicemia. Alterações nesses marcadores podem ser responsáveis pelos sintomas ou agravar significativamente o quadro.

Passo 3 — Tratamento sintomático individualizado: Dependendo do caso, o tratamento pode incluir umidificantes orais (saliva artificial), analgésicos tópicos de baixa concentração e, em casos com componente hormonal claro, encaminhamento à ginecologia para avaliação da Terapia de Reposição Hormonal (TRH). Conforme descreve o portal Drauzio Varella sobre a síndrome da boca ardente, a abordagem multidisciplinar entre dentista e médico tende a trazer os melhores resultados para a paciente.

Passo 4 — Orientações para o dia a dia: Ensino cada paciente a adaptar sua dieta priorizando alimentos frios ou em temperatura ambiente, a manter hidratação adequada ao longo do dia e a evitar substâncias irritantes como álcool, picantes e enxaguantes alcoólicos.

Passo 5 — Acompanhamento contínuo: A SBQ é uma condição crônica, mas altamente gerenciável. Com o tratamento correto, estudos apontam melhora em até 70% dos casos ao longo de alguns meses. Aqui na clínica, acompanho de perto cada etapa da evolução da paciente, ajustando o plano terapêutico conforme necessário.

Se você também percebe que suas gengivas estão mais sensíveis e retraídas nessa fase da vida, confira meu artigo sobre retração gengival e suas causas, pois esse problema pode coexistir com a SBQ e merece atenção especializada.

Com mais de 20 anos de prática odontológica em Ipanema, minha maior satisfação é ajudar cada paciente a compreender o que está acontecendo com a sua saúde bucal e oferecer um cuidado verdadeiramente personalizado. Se você reconhece algum dos sintomas descritos aqui, não espere: agende uma consulta e vamos investigar juntas.